quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Apple, Steve Jobs e eu

(Tardo, mas não falho.)

Meu primeiro contato com a Apple aconteceu não faz muito tempo. Foi em 2008, mais precisamente, mas lembro como se tivesse sido ontem. Comentei com um amigo do trabalho que estava pensando em comprar um Palm (é... um Palm), porque minha memória estava falhando tanto que estava mais pra vaga lembrança. Eu já tinha tido um e gostava do brinquedinho, só que me roubaram durante um assalto. Meu amigo perguntou "Por que você não compra um iPod Touch?". Até então eu, super alienada do mundo Apple, nunca tinha ouvido falar nele. Perguntei do que se tratava e meu amigo, ao invés de responder, abriu o site da Apple na página do iTouch. Pronto, me conquistou literalmente à primeira vista.

A princípio, relutei. Confesso que tinha certas ressalvas com os produtos da Apple. "Tudo proprietário demais, caro demais, será que vale a pena?" era o que eu sempre pensava. Depois vi que não estava de todo errada, ainda que minhas ressalvas não passassem de frutos da minha ignorância... Mas não me arrependo de absolutamente nenhum centavo do que já investi nesses produtos. Depois de algum (pouco) tempo namorando a ideia, fui até uma loja da Fnac, peguei o iPod na mão, senti o peso, liguei, cutuquei, fucei onde podia. Saí de lá decidida. Voltei pra casa, entrei no site da loja e comprei o iPod Touch, em milhares de vezes, claro. Quando chegou, foi puro deslumbre!!

Hoje, mesmo com o iPhone, não tive coragem de me desfazer do iTouch. Ele continua comigo, funcionando como se fosse novo, firme e forte. Muito do que fazia nele migrei pro iPhone, mas as músicas continuam no iPod, pra economizar a bateria do telefone - essa foi a melhor desculpa que arrumei pra mim mesma pra não me desfazer dele. E tô bem contente assim, mesmo sabendo que não vou parar por aqui.

A morte do Steve Jobs, embora não tenha sido totalmente inesperada, dadas as condições de saúde dele, me surpreendeu e me chateou. Depois de adentrar no mundo da Apple, mudei completamente a concepção que tinha antes sobre os seus produtos, me interessei mais por tecnologia em geral, pela história da empresa e de onde tinham vindo tantas ideias excepcionais. Fiquei chocada com a genialidade do Jobs; e, agora, triste com a sua morte.

Reproduzo abaixo um dos melhores artigos que li sobre Steve Jobs agora, depois da sua morte, publicado na Veja da semana passada, 12 de outubro. Foi escrito por Leander Kahney, autor do livro "A Cabeça de Steve Jobs", com exclusividade para a edição especial da revista.

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Tudo Seria Mais Complicado Sem Ele

Nosso mundo seria muito diferente sem Steve Jobs. Não teríamos smartphones fáceis de usar, controlados pelo dedo na tela. Se tivéssemos algum tipo de smartphone, ele teria teclado e um estilete. Seria confuso e difícil de usar. É fácil imaginar o mundo sem o iPhone: nenhuma empresa estava trabalhando com nada semelhante quando Jobs apresentou o aparelho, em 2007. Da mesma forma, não teríamos a App Store, que torna o iPhone tão poderoso - ele se transforma, vira o que quisermos, dependendo do aplicativo que estiver rodando. A App Store verdadeiramente revolucionou a distribuição e a descoberta de softwares. A maioria dos rivais da Apple, incluindo Google e Microsoft, agora tem lojas de aplicativos.

Também não teríamos tablets controlados pelos dedos. Para ver como eles seriam se Jobs não tivesse criado o iPad, olhe para os aparelhos que Bill Gates estava exibindo em 2001. Na feira de informática Comdex, Gates apresentou um protótipo que tinha uma interface controlada por uma caneta e rodava o Windows XP. "O tablet é um PC potencialmente sem limites", disse Gates então. "E, dentro de cinco anos, eu prevejo que será a forma mais popular de PC vendida nos Estados Unidos". Gates estava certo sobre o fato de o tablet se tornar o PC mais popular entre os americanos e em todas as partes do mundo. Mas ele não tinha ideia de que funcionaria com a tecnologia de toque na tela e estava errado quanto ao prazo. Levaria ainda uma década.

Não teríamos, em resumo, interfaces de toque. Elas estão rapidamente indo muito além do iPhone e do iPad. Touch screens, como chamamos em inglês essas telas mágicas, estão brotando em toda parte - caixas automáticos, de supermercados, estandes de informações em museus e aeroportos. Elas estão em aparelhos de navegação para carros, em sistemas de entretenimento, em aviões e nas máquinas de vendas.

Em um mundo sem Jobs, poderíamos não ter nem mesmo computadores pessoais fáceis de usar. Isso é mais difícil de imaginar, porque os PCs estão conosco há tanto tempo que não damos o devido valor à existência deles. Mais uma vez, no entanto, foi Jobs quem teve a primeira percepção sobre o que o computador pessoal poderia ser e quem aperfeiçoou a concepção dele com o primeiro Mac.

A ideia de Jobs para o computador pessoal remonta a 1976, quando a Apple ainda funcionava na garagem dos pais dele. Jobs e Steve Wozniak, o outro fundador da Apple, vendiam o Apple I, um PC de baixo custo que era pouco mais do que uma placa-mãe. Para continuar, Jobs queria um computador que não precisasse de montagem nem configuração feitas pelo consumidor. Lembre-se: isso num período em que "computadores" eram vendidos pela IBM a grandes empresas. Eles enchiam salas inteiras e precisavam de equipes de operadores. "PCs" mais baratos vinham apenas em forma de kits. Os usuários compravam uma caixa de transistores de fornecedores de material eletrônico para amadores e tinham de montar e soldar os kits eles mesmos.

Jobs era um adolescente riponga que crescera na contracultura do fim dos anos 60. Ele queria democratizar a  tecnologia, colocando-a nas mãos das pessoas comuns. E isso significava vender um computador que fosse fácil de usar. A inspiração dele eram os eletrodomésticos de cozinha de uma loja de departamentos qualquer. Jobs notou que, quando um consumidor compra uma torradeira, ele não precisa montá-la nem ler um manual. Apenas a tira da caixa, põe na tomada e usa. Jobs queria a mesma experiência para o Apple II.

Ele insistia na ideia de que era crucial um arcabouço bem desenhado e pronto para funcionar assim que saísse da caixa. O Apple II foi o primeiro PC projetado para o consumidor comum. Foi um sucesso estrondoso, fazendo da Apple uma das maiores empresas de PCs quase da noite para o dia e estabelecendo o modelo para companhias concorrentes seguirem.

O outro grande avanço de Jobs veio em 1979, quando foi recebido para uma visita no laboratório de pesquisa Parc, da Xerox. Ali, ele viu um computador impressionante que tinha figuras e ícones na tela e era controlado por um mouse de três botões. O Xerox Alto não passava de uma experiência de laboratório, e a direção da Xerox tinha pouco interesse em comercializá-los. Jobs, porém, percebeu imediatamente que ali estava o futuro da computação pessoal e mandou os engenheiros da Apple copiá-lo.

Cinco anos depois, o resultado era o Macintosh, lançado com grande festa em 1984. A Xerox pode ter germinado as ideias, mas Jobs teve a percepção de ver que a interface gráfica do usuário era o modelo certo para os consumidores comuns. Era simples e fácil de usar. E estabeleceu o paradigma para todos os computadores pessoais que se seguiram. Naquele tempo, basicamente todo mundo era um usuário de Mac, porque Gates o copiou de um modo muito eficaz no Windows.

Há muitas outras coisas que poderíamos não ter sem Jobs. Poderíamos não ter tocadores digitais de música. O iPod não foi o primeiro tocador de mp3, mas é difícil imaginar os que vieram antes do iPod tornando-se populares. Eles tinham uma infinidade de botões. Era difícil achar e tocar as músicas. Até carregá-las de um computador era problema.

Na verdade, poderíamos não ter uma indústria musical. No fim dos anos 90, antes do iPod e do iTunes, ela estava sendo morta pelo Napster. As vendas de cds entravam em colapso, conforme os apreciadores iam baixando as músicas de redes de compartilhamento de arquivos. A indústria musical estava paralisada e dividida. Alguns selos tentaram estabelecer as próprias lojas online ou adotaram formatos anticópia hostis ao consumidor. Jobs mostrou à indústria musical como criar um negócio digital que competia com a pirataria, tornando fácil comprar e baixar músicas. A loja virtual iTunes fez com que fosse melhor comprar do que roubar música. As músicas são baratas - apenas 0,99 dólar - e adquiridas com um par de cliques.

E poderíamos simplesmente não ter bugigangas amigáveis. A tendência na indústria da tecnologia é adicionar, não tirar. A cada novo modelo de aparelho, o fabricante se vê impelido a sobrecarregá-lo com novas características para atrair consumidores. Câmeras digitais são um bom exemplo: é quase impossível comprar uma que apenas tire fotos. Elas têm modos e efeitos especiais e até software de edição.

Jobs foi um raro executivo da indústria tecnológica que simplificou impiedosamente seus produtos. Durante anos a Apple foi criticada por causa de seu mouse de um botão só. Usuários técnicos faziam pouco da sua simplicidade. Mas as crianças e os velhos, que nunca tinham usado computador, acharam muito mais fácil aprender. É impossível apertar o botão errado se só existe um. A mesma coisa se deu com o iPod. Os primeiros modelos foram criticados por não ter rádio FM embutido. Adicionar um rádio, porém, teria complicado o aparelho, o que Jobs queria evitar.

Infelizmente, o impulso da Apple de fazer aparelhos simples e acessíveis foi apenas parcialmente influente. Só umas poucas empresas, como a Palm, disseram explicitamente que sua inspiração veio da Apple. O melhor exemplo é um produto de outra marca, a Flip, uma pequena câmera-gravadora de vídeo parecida com um iPod. Ela não tem efeitos especiais de vídeo, apenas um botão e faz uma coisa só: grava vídeos. Em quatro anos tornou-se a câmera-gravadora número 1 e conquistou uma fatia de 25% do mercado, batendo grandes nomes como Canon e Panasonic. A câmera Flip mostrou que os consumidores querem simplicidade, não complexidade - mas poucas companhias aprenderam a lição. Bom desenho, facilidade de uso e atenção fanática aos detalhes sempre foram as marcas registradas da carreira de Jobs.

Enfim, o mundo sem Jobs seria um lugar mais pobre caso não tivéssemos acesso às suas invenções. Ele lançou o padrão do computador nos anos 70 e 80 e, trinta anos mais tarde, inventou tudo outra vez e nos apresentou o iPhone e o iPad. Os produtos de Jobs tiveram tanto impacto em nossa cultura quanto o telefone de Graham Bell e o carro, levado à linha de montagem por Henry Ford. Todos usamos computadores pessoais - a trabalho ou para diversão - e foi Jobs, mais do que qualquer outro, o principal inovador dessa indústria.

Leander Kahney
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Obrigada, Steve Jobs.


- m -

3 comentários:

  1. Oi Milena! Muito bom seu texto sobre Jobs. No dia seguinte a sua morte, minha irmã mais velha que é uma analfabeta digital por opção, me perguntou porque tanto auê sobre a morte desse cara. Expliquei à ela a importância dele e de toda sua obra pra vida moderna e então ela mais ou menos entendeu. Sou uma apaixonada pelos produtos da Apple mas ainda não tenho nada. Quem sabe um dia né? Ah! Em tempo: vi que está lendo O enigma do oito. Li há muitos anos atrás e sem dúvida posso dizer que é um dos melhores livros que já li.
    Bjs

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  2. Oi, Rose!

    Realmente não tem como ignorar a importância do trabalho do Jobs. Gostei bastante do artigo da Veja porque ele expõe justamente isso, como seria a nossa vida cotidiana hoje se ele simplesmente não tivesse existido. Com certeza seria tudo muuuito diferente... e mais chato. =)

    Sou suspeitíssima pra falar, mas super recomendo o iPhone, que está muito longe de ser só um celular. É caro sim, isso eu não discuto, mas compensa, especialmente pra quem curte tecnologia. Se você um dia quiser se aventurar, é um bom começo.

    Já acabei de ler o Enigma do Oito, adorei!! Na verdade sofri um pouco porque de xadrez eu não entendo absolutamente nada... Mas o livro é dinâmico e mistério intriga bastante. Você leu a continuação, O Fogo?

    Bjos e obrigada por comentar!
    ;)

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  3. Oi Milena recebi o livro O Fogo há pouco tempo na biblioteca mas com tantos livros bons pra ler, ainda não o peguei. Mas está na minha lista de leitura sim. Obrigada pel dica do iPhone
    Bjs

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