quinta-feira, 30 de julho de 2009

Continho?

Ele estava sozinho em casa naquela noite, como sempre. Havia saído mais tarde do trabalho e, depois de jantar no restaurante de um velho amigo, foi para casa, pensando. De vez em quando se permitia esses momentos de reflexão, quando lembrava da loucura que fora sua juventude, dos bons e maus momentos, dos anos de reclusão por causa de uma síndrome do pânico, seguidos de mais alguns anos de um tratamento difícil, mas que enfim terminara. E seus pensamentos sempre acabavam nela.

Ela havia sido a única mulher a quem amara incondicionalmente. Houve o tempo em que pôde ter quem quisesse, mas quando a conheceu, tudo mudou. Ela o compreendera, o amara e o respeitara como homem, não como o cantor famoso que ele nunca quis ser. E, como uma brincadeira de mau gosto do destino, o deixou cedo demais, vítima fatal de um acidente de carro. Quando isso aconteceu, o casamento estava marcado. Em alguns meses ele receberia alta do terapeuta, e a recém parceria com dois amigos na liderança da empresa ia cada vez melhor.

Então ele entrou em uma fase de depressão quase tão ruim quanto a da síndrome do pânico. A dor era terrível. Sentia que seu chão havia sido arrancado, que estava perdido, que nada mais em sua vida fazia sentido. No auge da depressão, pensou em suicídio. Mas a família, em especial a irmã, impediu que isso acontecesse. Aos poucos, com o tempo, o apoio da família e dos amigos, e um novo tratamento psicológico, ele se recuperou, mas nunca mais seria o mesmo. Após o episódio, ele se fechou e não se permitiu envolver com mais ninguém. Para ele apenas ela existira e ninguém seria capaz de substituí-la.

Pensava em tudo isso enquanto observava o céu limpo e a lua cheia da varanda do seu quarto, olhando mas na realidade sem ver. Agora estava bem, o tratamento havia terminado e a empresa não poderia estar melhor. Mas sua vida poderia, se ela estivesse ali, ao seu lado. Então, como sempre fazia quando era tomado por estes pensamentos, procurou afastá-los movendo a cabeça de um lado para outro, como se o movimento pudesse fazer com que simplesmente caíssem e fossem assim totalmente esquecidos. Lembrou-se de que no dia seguinte teria que comparecer a um coquetel com um dos fornecedores da empresa. Tentou fixar a mente nisso, entrou e foi tomar um banho, para depois ir se deitar. Demorou a dormir, mas quando o sono veio, trouxe uma noite inteira sem sonhos.




- m -

2 comentários:

  1. Taí, gostei!! Vai ter continuação?
    Bjs

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  2. Oi, Rose! Obrigada! =D Então, na verdade esse texto é um trecho de um livro que venho escrevendo há anos e é meu xodó... Pra ser mais exata, é o terceiro capítulo, que apresenta um dos personagens secundários. Não sei ainda, mas provavelmente devo continuar escrevendo textos curtos, talvez com base nesse, você me deu uma boa idéia! Beijos!

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